Por Rogério Ferreira

Uma notícia que circulou intensamente pelas redes sociais nos últimos dias nos convoca a uma reação imediata. Não apenas pelo sentimento coletivo de profunda tristeza e solidariedade à professora atingida, mas pela urgência de manifestarmos nossa repulsa diante de um cenário que ultrapassou qualquer limite civilizatório. Como educador, defendo que todo professor que possua um canal de comunicação ou voz na internet utilize seu espaço para expor e repudiar episódios como este. O silêncio não é uma opção quando a dignidade do magistério é violada.

O caso, ocorrido no interior de São Paulo, envolve a professora de ciências Michele Ramos. Durante uma de suas aulas, três estudantes — com idades estimadas entre 13 e 14 anos — foram flagrados por câmeras de segurança manipulando o copo de água da docente. Um deles confessou ter colocado uma lâmina de vidro no recipiente. A tragédia só não se consumou porque a professora percebeu uma movimentação estranha e não bebeu o líquido.

O que causa ainda mais espanto e indignação é o comportamento do restante da classe. A sala inteira, ou grande parte dela, sabia do que estava ocorrendo. Em vez de um único “filho de Cristo” alertar explicitamente a professora sobre o perigo real, o que se viu foi um festival de sussurros, gracinhas e piadas de mau gosto. Alunos limitavam-se a dizer, entre risinhos: “Se eu fosse você, não beberia essa água”. Eles esperavam o espetáculo do sangue; assistiam inertes à iminência de um ataque que poderia provocar uma hemorragia grave e colocar a vida da docente em risco.

Com seis anos de profissão, Michele declarou nunca ter vivido nada semelhante. O episódio acende um alerta vermelho sobre a atualidade. Costuma-se culpar de forma simplista o fato de os jovens estarem “cada vez mais conectados”, mas o buraco é muito mais embaixo. Estamos colhendo o reflexo do que é cultivado dentro de casa — onde há evidente falta de limites e de educação familiar —, somado a um processo sistemático de demonização e enfraquecimento da autoridade pedagógica, alimentado há anos por setores da grande mídia e por governos, como o de Tarcísio de Freitas em São Paulo, que desvalorizam o profissional de todas as maneiras possíveis.

A violência contra o professor é tolerada e, por vezes, sutilmente incentivada porque o docente, pelo cargo que exerce e pela postura que dele se espera, não reage fisicamente. Mas esses jovens precisam entender que a vida fora dos muros escolares cobra um preço alto. O jovem que hoje tenta ferir um professor é o mesmo que amanhã desrespeitará o porteiro, o padeiro, o comerciante ou qualquer outro cidadão. E, no mundo real, para cada ação há uma reação — e nem todos os adultos toleram gracinhas com o mesmo profissionalismo de um educador.

Os três alunos foram suspensos e o caso foi encaminhado ao Conselho Tutelar e à Polícia Civil como ato infracional. Embora muitos setores jurídicos tentem “passar a mão na cabeça”, a gravidade do ato, pelo potencial lesivo do vidro, flerta diretamente com a tentativa de homicídio.

A professora Michele Ramos encontra-se atualmente afastada devido ao gigantesco abalo psicológico. É provável que precise de muito tempo para se recuperar. Afinal, como sentir-se segura novamente ao dar as costas para uma lousa? O trauma imposto a ela é uma ferida aberta em todo o corpo docente do país. Fica aqui o espaço aberto para que a comunidade também se manifeste e demonstre que os professores não estão sozinhos nesta trincheira.

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