Ações dos Bebês e as Pedagogias para a Pequena Infância: Observação, Registro e Progettazione
Uma análise aprofundada sobre a construção do estatuto da Educação Infantil, a imagem da criança ativa e as contribuições de Loris Malaguzzi, Emmi Pikler e Jerome Bruner.
1. Introdução e Contextualização do Estudo
Neste estudo, de forma sumária, procuro fazer visível algumas das premissas do pensamento complexo, através do modo como os dados foram interpretados e, principalmente, pelo método utilizado na geração destes, muito embora não seja intenção deste estudo se definir nesta ou noutra perspectiva.
Com isso, julgo prudente elucidar a quais especificidades me refiro, ao sublinhar a constituição do estatuto direcionado às Pedagogias para a Pequena Infância, a partir do que Rocha (2001) e Barbosa (2000, 2009) já anunciaram em seus estudos; e, sobretudo, aproximando-as dos três autores (e dos seus interlocutores) que compõem o quadro teórico que optei utilizar para essa pesquisa: Loris Malaguzzi, Emmi Pikler e Jerome Bruner.
A partir do momento em que a educação das crianças pequenas se tornou responsabilidade social e coletiva, nasce a necessidade de se voltar para a experiência pedagógica e pensar sobre como configurá-la. Atualmente, mesmo com uma produção acadêmica considerável já acumulada, acredito que ainda estejamos constituindo esse campo do saber, inventariando modos de criar um estatuto que permita, ao mesmo tempo, atender à complexa estrutura da Educação Infantil e “refletir sobre o que se faz na escola com e para as crianças sem abstrair essa ação do contexto no qual é concretamente realizada” (BONDIOLI, 2004), considerando, portanto, a premissa básica – enquanto etapa da Educação Básica – de complementariedade à educação da família: de cuidar e educar.
Refiro-me à especificidade desse tema, desejando contribuir com os estudos para e sobre a Educação Infantil, na intenção de que essa etapa da Educação Básica possa construir seus parâmetros diferentes das demais, não por julgamento de valor entre uma ou outra, e, sim, pelo caráter que cada uma dessas ocupa na esfera social. De acordo com Rocha (2001), Barbosa (2009) e Brasil (2009), os sujeitos da Educação Infantil não são alunos, mas crianças.
2. Criança x Aluno: A Desconstrução de um Papel Inventado
A escolha por qual palavra dá o nome também revela o modo como nos relacionaremos e atribuiremos o papel desses sujeitos nos cenários em que a vida transcorre. Sacristán (2005), no livro “O aluno como invenção”, aborda sobre a forma como os sujeitos são escolarizados e qual o valor disso para a vida deles. Concordo com Sacristán quando o autor chama atenção para o fato que o papel do aluno na sociedade se trata de uma invenção feita por adultos – pais, professores, legisladores e intelectuais – a respeito de como organizar e impor normas na vida dos não adultos. Nas palavras do autor, sobressaem-se as formas como os adultos fazem atribuições aos sujeitos, e também, como naturalizamos a presença dos alunos na sociedade.
Do mesmo modo, as obrigações já postas de antemão à categoria aluno, determinam certo modo de ser e se comportar, ou seja, a forma de ser aluno é de ser sujeito em um sistema prévio a ele. Consequentemente, ao transformarmos as crianças em alunos, estamos atribuindo a elas uma cultura escolar já marcada pela e na sociedade, que traz consigo outros vocabulários que as naufragam em um arcabouço escolarizado. Garantir que a Educação Infantil seja habitada por crianças coloca em voga a possibilidade de viverem atribuições de crianças, como por exemplo, brincar.
Ademais, situar a ideia de criança e não mais de alunos em contextos de vida coletiva provoca reivindicações relativas a:
- i) Respeito à individualidade e contra os movimentos de homogeneização;
- ii) Possibilidade da construção de um espaço no qual adultos e crianças habitem, convergindo culturas infantis e adultas sem o caráter dominante do adulto sobre a criança;
- iii) Dimensão humana que reside sobre a ideia de criança que chega ao mundo – que, como destaca Malaguzzi (1995), desde sua chegada é desejosa de se comunicar, relacionar e engajada em experimentar o seu entorno.
3. A Imagem da Criança e a “Membrana Teórica” em Malaguzzi
É importante fazer outro destaque, o qual Malaguzzi define como membrana teórica: a imagem da criança. Além de ser o ponto central na sua pedagogia, o pedagogo italiano afirma que é a partir dessa imagem que declaramos nossos princípios éticos em relação às crianças, definindo o ponto de encontro entre o nosso discurso e nossa prática.
“Este é o cimento sobre o qual temos que sustentar todo o projeto educativo. É a pergunta prévia e primeira em relação a outras perguntas sobre o para quê e como educar.”
Segundo Malaguzzi (1999), diversas imagens de crianças já foram – e ainda são – convencionadas na sociedade. Uma delas é a da criança que falta, que não é e que não tem. No entanto, o pedagogo italiano prefere apostar na criança que é, que tem: uma criança ativa, competente, desafiadora e curiosa por experimentar o mundo, que se comunica desde que nasce, que é feita de “cem linguagens”, de “cem formas de pensar”, capaz, inclusive, de criar “mapas pessoais para sua orientação social, cognitiva, afetiva e simbólica” (RINALDI, 2012).
Outro aspecto que compõe a especificidade das Pedagogias para a Pequena Infância trata de refletir sobre os locais nos quais crianças e adultos se encontram e convivem diariamente. Eles deixam de ser “salas de aula” e se tornam “salas referências” (BRASIL, 2009) ou “unidades de vida”. Bondioli (2004) aponta que a sala referência qualifica a pertinência do grupo, vivenciada como um espaço próprio, constituído socialmente pelas interações e narrativas.
Se, no Ensino Fundamental, a função é o ensino e o domínio de conhecimentos básicos, a Educação Infantil se estabelece como o lugar privilegiado das relações (MALAGUZZI, 1999). O foco volta-se aos processos de como as crianças se relacionam consigo mesmas, com os outros, com os adultos e com o mundo.
4. Cuidar, Educar e a Incoerência da Didática Positivista
Barbosa (2009) destaca aspectos cruciais das Pedagogias para a Pequena Infância: o cuidado, a educação, a nutrição, a higiene, o sono, as diferenças socioeconômicas e culturais, a relação com as famílias e com crianças que utilizam formas não verbais de comunicação. Além disso, a autora inclui temas da cultura contemporânea como gênero, cidadania, raça, comunidade e religião.
Ao chegar na didática (etimologicamente “apto para ensinar”), percebe-se um choque entre o discurso atual e os aparatos escolares. Fortunati (2009) aponta a contradição entre afirmar uma criança capaz e manter artefatos didático-pedagógicos (currículo, avaliação, rotina) engessados numa dimensão positivista e previsível, onde o adulto estrutura a atividade para verificar um resultado já antevisto.
Superar essa incoerência exige uma mudança epistemológica pautada no trio:
- Observação: Ação educativa focada em escutar a criança, e não em transmitir;
- Registro: Ato de dar sentido às ideias infantis e fornecer visibilidade pública/política ao projeto educativo;
- Progettazione: Processo contínuo de acompanhamento dos percursos infantis que se difere do planejamento tradicional engessado, emergindo da própria experiência.
5. Os Três Interlocutores Teóricos
Loris Malaguzzi
Difundiu na região de Emilia Romagna (Itália) uma ideia revolucionária sobre a infância. Malaguzzi defendia que “as coisas relativas às crianças e para as crianças somente são aprendidas através das próprias crianças”. Sua obra reúne contribuições interdisciplinares que vão de Dewey, Piaget e Vygotsky a artistas, arquitetos e poetas.
Através da documentação pedagógica, tornou visível uma criança ativa e capaz. Com seu celebre poema “As cem linguagens”, denunciou o modo como a escola tradicional rouba as linguagens infantis e separa a cabeça do corpo.
Emmi Pikler
Idealizadora da experiência de Lóczy (Budapeste), a médica e pediatra defendeu a indissociabilidade entre a saúde física e psíquica dos bebês. Pikler revolucionou o atendimento infantil ao demonstrar a importância da liberdade de movimentos e da não intervenção direta do adulto nas posturas do bebê.
A abordagem Pikleriana baseia-se em quatro grandes princípios:
- Valoração positiva da atividade autônoma;
- Valor das relações pessoais estáveis (atividades de atenção personalizadas no cuidado);
- Promoção da imagem positiva de si e consciência do entorno;
- Manutenção e encorajamento da saúde física.
Jerome Bruner
Psicólogo e pesquisador que transitou dos estudos de laboratório (in vitro) para a pesquisa em situações naturais (in vivo). Bruner defendeu a integração entre o desenvolvimento biológico e cultural, ressaltando o papel da narrativa para dar sentido à experiência e ao mundo.
Suas ideias sobre a descoberta como chave do processo educativo e a integração das linguagens influenciaram diretamente a abordagem de Malaguzzi em Reggio Emilia.
6. Ações dos Bebês, Espaços Vazios e Experiência
Inspirando-se no documentário Babies (Thomas Balmès) e nas obras de Anna Marie Holm e Peter Brook, o estudo se volta para os “espaços vazios” — momentos em que o adulto não intervém diretamente e onde o novo pode emergir.
Apoiando-se na filosofia de Hannah Arendt, o termo Ação é compreendido a partir de sua raiz etimológica (agere / archein): tomar iniciativa, iniciar algo novo não previsto. O bebê é reconhecido como um iniciador.
A experiência é conceituada a partir de John Dewey como uma transação/interação contínua entre o indivíduo e o seu ambiente, onde sujeito e meio se transformam mutuamente.
7. Caminhos Metodológicos: A Documentação como Metodologia
Diante da escassez de metodologias próprias da Pedagogia para pesquisar com bebês, o estudo recorre ao conceito de “pesquisador artífice” de Howard Becker (1997) para realizar um “rapto” da abordagem da documentação pedagógica italiana, convertendo-a em método de investigação.
A pesquisa estruturou-se na articulação entre os seguintes movimentos:
A articulação dos dados dividiu-se em quatro dimensões interligadas:
- 1. O Campo: O contexto complexo e dinâmico da instituição de Educação Infantil;
- 2. No Campo: O exercício da observação participante e do registro rigoroso do cotidiano;
- 3. Do Campo: A reflexão, contrastes com o professor e produção da progettazione;
- 4. Síntese e Análise: A compilação dos dados em “folhetos” narrativos que visibilizam as ações e linguagens dos bebês.