Haddad promete rever plataformas digitais nas escolas de SP e critica gestão Tarcísio

Educação • Eleições 2026

Haddad promete rever plataformas digitais nas escolas de SP e critica política educacional de Tarcísio e Renato Feder

Candidato promete mudanças no uso das plataformas, novos concursos e maior autonomia pedagógica aos professores. Debate ocorre em meio a críticas ao modelo digital implantado na rede estadual paulista.

Atualizado em 22 de agosto de 2026

O candidato ao Governo de São Paulo Fernando Haddad (PT) apresentou neste sábado (22) um conjunto de propostas para a educação estadual e colocou no centro do debate uma das políticas mais discutidas da atual gestão: o uso intensivo de plataformas digitais nas escolas da rede estadual.

A política foi ampliada durante o governo de Tarcísio de Freitas, com a Secretaria da Educação comandada por Renato Feder, e passou a fazer parte de maneira cada vez mais presente da rotina de estudantes, professores, coordenadores e gestores escolares.

Uma das principais promessas de Haddad é rever as metas relacionadas ao uso das plataformas e ao tempo de tela dos estudantes. O candidato afirma que pretende devolver maior autonomia pedagógica às escolas e reduzir a pressão administrativa sobre os professores.

Haddad fala em “plataformização contra o professor”

Durante a apresentação de suas propostas, Haddad fez uma das críticas mais contundentes até agora ao modelo tecnológico adotado na rede estadual paulista. Segundo o candidato, professores estão sendo pressionados a cumprir conteúdos padronizados e metas relacionadas às ferramentas digitais.

“Aquilo ali não vai resolver nada na educação. Você está fazendo uma plataformização contra o professor.”

Haddad também afirmou que existem professores que se sentem “desprestigiados” e “vigiados” dentro do atual modelo de gestão. A promessa é de que a política seja revista já no início de uma eventual administração.

A discussão não significa necessariamente eliminar a tecnologia das escolas. O principal ponto colocado pelo candidato é a forma como essas ferramentas são incorporadas ao cotidiano escolar e utilizadas como mecanismos de acompanhamento e cobrança do trabalho pedagógico.

Reclamações de professores e estudantes

As críticas às plataformas não surgiram apenas durante o período eleitoral. Ao longo dos últimos anos, relatos de professores da rede estadual passaram a questionar a obrigatoriedade de determinadas atividades digitais, a quantidade de sistemas utilizados e a pressão pelo cumprimento de metas.

Entre os questionamentos estão a perda de autonomia do professor para organizar suas aulas, o excesso de tarefas digitais, a necessidade de acompanhar indicadores de utilização das ferramentas e a transformação da quantidade de atividades realizadas em um dos parâmetros de acompanhamento das escolas.

Também existem reclamações entre estudantes sobre o grande volume de atividades. O debate se intensificou quando surgiram casos de alunos utilizando ferramentas de automação e inteligência artificial para executar tarefas das plataformas em poucos segundos.

O ponto central da discussão: realizar um grande número de atividades digitais não significa, necessariamente, que tenha ocorrido aprendizagem na mesma proporção. Métricas de acesso, cliques e exercícios concluídos precisam ser analisadas juntamente com indicadores efetivos de aprendizagem.

Enem coloca resultados da rede estadual novamente em debate

Os resultados do Enem 2025 acrescentaram um novo elemento à discussão sobre o desempenho da educação paulista.

Levantamento realizado a partir dos resultados das escolas mostrou que nenhuma escola pertencente à rede estadual paulista ficou entre as 100 instituições com maiores médias do Enem no estado de São Paulo.

100
escolas paulistas com maiores médias consideradas no levantamento.
4
eram instituições públicas entre as 100 primeiras.
0
escolas da rede estadual paulista entre as 100 primeiras.

As quatro instituições públicas presentes nessa lista possuem processo seletivo para ingresso e não pertencem à rede estadual regular.

Esse dado não permite, isoladamente, concluir que as plataformas digitais sejam responsáveis pelo desempenho das escolas. O resultado de uma escola no Enem é influenciado por diversos fatores, inclusive condições socioeconômicas, perfil dos estudantes e características das próprias instituições.

Entretanto, o levantamento fortalece o questionamento sobre a ideia de que uma digitalização intensa, por si só, seria capaz de produzir rapidamente resultados acadêmicos superiores.

Quantidade de atividades não é sinônimo de aprendizagem

A rede estadual paulista passou por uma digitalização de grande escala. Milhões de estudantes utilizam ferramentas para leitura, matemática, redação, tarefas e acompanhamento de conteúdos.

O desafio é estabelecer até que ponto esses recursos são efetivamente instrumentos pedagógicos e em que momento passam a funcionar principalmente como mecanismos de controle de produção e cumprimento de metas.

Essa distinção é especialmente importante porque uma plataforma pode registrar que determinada atividade foi concluída, mas o registro não demonstra sozinho quanto o estudante compreendeu, se houve reflexão sobre o conteúdo ou se aquela atividade foi adequada às necessidades daquela turma.

Governo paulista também apresenta indicadores positivos

O outro lado do debate

Uma análise equilibrada da política educacional paulista também precisa considerar que a gestão estadual apresenta indicadores que considera positivos.

A Secretaria Estadual da Educação atribui parte dos avanços recentes observados em avaliações da rede a políticas de recomposição da aprendizagem, acompanhamento pedagógico, formação, reforço e ferramentas digitais.

Isso significa que a discussão sobre a plataformização não pode ser resumida simplesmente à afirmação de que “tudo deu errado”. O debate mais importante é qual parcela dos resultados pode ser atribuída às ferramentas digitais, qual o custo pedagógico do modelo e se o nível de obrigatoriedade é adequado.

Saúde mental e condições de trabalho dos professores

Haddad também relacionou sua proposta de mudança à situação dos profissionais da educação. Segundo o candidato, professores estão adoecendo em razão da forma como vêm sendo tratados e da pressão existente dentro do atual modelo.

Entre os problemas citados estão o preenchimento constante de sistemas, a ausência de perspectivas profissionais, a cobrança de metas e questões relacionadas à carreira.

“Esse terror vai acabar. Nós vamos dar as mãos. Eu quero o compromisso de todo mundo de que nós vamos recuperar esse estado.”

O candidato prometeu ainda a realização de novos concursos públicos para professores e mudanças na carreira, com a intenção de oferecer maior perspectiva profissional aos integrantes do magistério estadual.

Tecnologia deve servir ao professor — e não o contrário

A discussão sobre as plataformas também ganhou o apoio de Marina Silva, que participou do evento ao lado de Haddad. Ela defendeu maior autonomia pedagógica e argumentou que a tecnologia precisa estar a serviço do conhecimento, dos estudantes e dos professores.

Essa talvez seja a principal questão colocada pela discussão atual. O problema não está necessariamente na existência de computadores, aplicativos ou plataformas educacionais.

A tecnologia pode ser extremamente útil para oferecer exercícios, acompanhar dificuldades, produzir conteúdos e ampliar o acesso a recursos educacionais.

O questionamento surge quando a ferramenta deixa de auxiliar o trabalho pedagógico e passa a determinar como esse trabalho deve acontecer.

Outras propostas de Haddad para a educação paulista

  • Ampliação das vagas de educação em tempo integral.
  • Criação de uma rede estadual de Centros Educacionais Unificados (CEUs).
  • Expansão dos CEUs para interior, litoral e regiões metropolitanas.
  • Criação do programa Pé de Meia Paulista.
  • Fortalecimento do ensino técnico e profissionalizante.
  • Criação de novos polos de ensino integrados ao Sistema S.
  • Realização de novos concursos públicos para professores.
  • Revisão da carreira e das condições de trabalho do magistério.
  • Revisão do atual modelo de utilização das plataformas digitais.
  • Manutenção de posição contrária à expansão das escolas cívico-militares.

O debate vai além de ser contra ou a favor da tecnologia

A campanha eleitoral de 2026 coloca a política educacional paulista novamente no centro das discussões.

De um lado, o governo Tarcísio e a gestão de Renato Feder defendem uma rede cada vez mais orientada por dados, acompanhamento digital e ferramentas tecnológicas. De outro, professores, pesquisadores e agora candidatos de oposição questionam o grau de padronização, a obrigatoriedade das plataformas e os efeitos desse modelo sobre a autonomia docente.

A questão central talvez não seja simplesmente decidir se a escola deve ou não utilizar tecnologia.

O verdadeiro debate é outro: quem deve conduzir o processo pedagógico — as necessidades dos estudantes identificadas pelos profissionais que estão na escola ou as metas estabelecidas pelos sistemas e pelas plataformas?

Os resultados educacionais dos próximos anos e as escolhas feitas nas eleições de 2026 deverão definir os próximos capítulos dessa discussão na maior rede estadual de ensino do país.

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